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domingo, 11 de dezembro de 2011

Dia do Orgulho Hétero repercute na mídia cristã internacional


Quando o vereador Carlos Apolinário sugeriu em julho a criação do primeiro Dia do Orgulho Hetero do mundo, dizia estar querendo contrapor a famosa Parada LGBT que leva milhões às ruas da capital paulista todos os anos.
Mas além de várias opiniões favoráveis e contrárias na comunidade brasileira, o assunto foi tratado também pela revista norte-americana Charisma. Com edições em inglês e espanhol, a Charisma tradicionalmente alcança milhares de cristãos de tradição pentecostal.
Alguns ministérios cristãos que trabalham com gays acham que este tipo de proposta passa uma mensagem de divisão. Definitivamente não é uma unanimidade entre todos os segmentos evengélicos.
“Eu respeito os gays e sou contra qualquer tipo de agressão feita contra eles”, disse Apolinário justificando seu projeto. ”A criação do Dia do Orgulho Heterossexual não simboliza uma luta contra os gays, mas é contra o que eu acredito serem os excessos e privilégios”, finalizou o vereador evangélico do DEM.
Ironicamente, gays e cristãos parecem concordar que o Dia do Orgulho Hetero é uma ideia ruim. O crescimento de assassinatos de gays nos últimos anos subiu mais de 100% no Brasil. Por isso, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (ABGLT) está preocupada que a proposta de Apolinário possa incitar a violência homofóbica.
Quando soube que ele foi aprovado pela Câmara de São Paulo, ABGLT imediatamente emitiu nota dizendo que era “uma vergonha para a maior cidade do País”, a entidade pediu ao prefeito Gilberto Kassab que vete o projeto, classificando-o como “obscurantista”, “discriminatório” e “excrescência homofóbica”.
Jeff Buchanan é vice-presidente da Exodus International, ministério interdenominacional que auxilia quem luta contra a atração por pessoas do mesmo sexo, Ele já esteve no Brasil e está mais preocupado com a perseguição social que com possíveis atos de violência.
“Isso vai contribuir para a criminalização social da questão no Brasil. Vai separar aqueles que não podem necessariamente ser ativo, militantes, membros da comunidade gay, mas pode estar lutando”, afirma Buchanan. ”Apolinário vai basicamente colocar todos na mesma categoria. Minha preocupação é que os gays vão ser condenados ao ostracismo e, como resultado, poderão ser perseguidos socialmente”.
Buchanan também teme um perigo maior: obstáculos maiores para levar Jesus às almas perdidas. O Dia do Orgulho Heterossexual poderia criar uma divisão ainda maior entre a igreja e a comunidade gay no Brasil. “Não vamos ganhar almas com uma estratégia dessas”, diz Buchanan. ”A igreja só vai fazer a diferença quando realmente estiver disposta a amar e servir a comunidade gay.”
Para ele, uma parada de heterossexuais continuaria sendo apenas um desfile de pecadores. Em vez de homossexualidade, os participantes “orgulhosos” poderiam estar envolvidos em outros pecados como adultério, pornografia ou divórcio sem justificação bíblica. O pastor acredita que não há necessidade desses sentimentos de superioridade baseados apenas na orientação sexual. A questão principal não é a heterossexualidade, diz ele, mas a santidade.
Buchanan afirma conhecer igrejas do Brasil que tratam com os homossexuais de uma maneira bíblica. Isso significa trabalhar sério para atrair a comunidade gay até suas congregações mostrando o amor de Cristo. ”Temos de continuar a preencher a lacuna, para alcançar aqueles na comunidade gay com o amor e o evangelho de Cristo, sem comprometer a verdade”, enfatiza ele.
“É como em qualquer outra área do evangelismo. Você começa com os seus conhecidos, sua esfera de relações pessoais. Logo, você saberá quem desses homens e mulheres tem problemas nessa área. Se eles próprios, seus amigos ou membros da família querem ajuda, você ministra a eles. Você os ama e mostra a graça verdadeira para eles a partir de um relacionamento honesto. É assim que tudo começa”, finaliza.
Traduzido e adaptado por Gospel Prime de Charisma News

O lobby dos setores religiosos tem influenciado o debate sobre a Lei contra a homofobia?




Sim. É muito importante que a sociedade fique atenta, ao Projeto de Lei 122/2006, sabemos que várias pessoas fazem campanhas contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e deturpam o conteúdo. É cada vez mais alarmante o aumento da violência e dos assassinatos às pessoas LGBT's. Muitos desistem de estudar por causa da discriminação na escola, uns não conseguem emprego e outros são violentados todos os dias. É preciso entender que a população LGBT é a favor da livre expressão religiosa e de crenças, mas não se pode permitir que alguns setores fundamentalistas promovam a repulsa, a aversão e o ódio aos homossexuais. Nosso País é laico e os dogmas das religiões não podem influenciar o poder público para que não garantam os direitos humanos de todos. As lutas contra as violências aos LGBT é uma luta pela liberdade. 


ORLANEUDO LIMA
Titular da Coord. da Diversidade Sexual (SDH) de Fortaleza


As bancadas religiosas são formadas pelos maiores opositores do projeto de lei que criminaliza a discriminação em função da orientação sexual. A senadora Marta Suplicy relatora do PL 122/06 foi levada a entabular acordo com esses políticos de modo a facilitar a aprovação do projeto. No entanto, os líderes das bancadas evangélica e católica permaneceram fazendo suas objeções optando a relatora por adiar a votação do texto. A questão se repete no Legislativo há anos já que os políticos integrantes de tais bancadas obstam sistematicamente a aprovação de todos e quaisquer projetos de lei que tenham como objetivo assegurar ao segmento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) os mesmos direitos dos quais todo o restante da sociedade já possui, em especial o direito à igualdade, previsto em nossa Constituição
Federal. 
SYLVIA MARIA MENDONÇA DO AMARAL
Advogada especialista de Direito Homoafetivo

 
As religiões visam obter dos indivíduos certos comportamentos para elas considerados corretos. Contudo, algumas protagonizam grande contradição: não confiam apenas em seus ensinamentos e nem mesmo nas forças divinas; procuram se cercar de garantias para a manutenção de seus dogmas, tentando controlar o Estado e em especial a lei que, na nossa democracia, é o único instrumento capaz de criar obrigações e proibições para as pessoas. As que defendem o casamento eterno, por exemplo, lutaram contra a lei do divórcio; do mesmo modo, as que entendem o sexo apenas como procriativo, atacam as normas que protegem os homossexuais. Ocorre que a consciência cidadã está amadurecendo e cada vez é mais nítida a certeza constitucional de que o Estado deve promover o bem de todos, sem preconceitos nem discriminações. Isto impõe o respeito às opções individuais, além de sanções àqueles que as violarem. 


HUMBERTO CUNHA
Professor de Direito da Universidade de Fortaleza (Unifor)


Ainda que o Estado seja laico, o projeto de lei que torna crime o preconceito por orientação sexual (PLC 122), que tramita há quase dez anos no Congresso Federal, sofre com a desinformação e o conservadorismo religioso de alguns setores que fazem da criminalização à homofobia a sua principal pauta teológica e eleitoral. Com isso, confundem a sociedade sobre o real objetivo da propositura: o direito à vida e o respeito à cidadania daqueles que ousaram amar diferente do que se convencionou na sociedade. É importante ressaltar que o PLC 122 não restringe a liberdade de expressão e de culto, apenas pune condutas e discursos preconceituosos contra a orientação sexual, gênero e identidade de gênero. É inadmissível neste novo Brasil que vivemos %u2013 de liberdade e de respeito aos direitos civis %u2013 que um homossexual seja morto a cada 36 horas. Não existe democracia plena sem a consolidação da
democracia social.


ANTÔNIO CARLOS
Deputado estadual (e líder do governo na Assembleia

Não diria que dos setores religiosos, mas sim dos fundamentalistas pseudo-religiosos. Para eles, o que interessa não é o respeito às diferenças, nem o amor ao próximo, muito menos a multiplicidade de pensamento. O que está em jogo é a manutenção do poder sobre um rebanho que, uma vez esclarecido, corre sério risco de ficar diminuto (e consequentemente reduza também o poder desses supostos pastores). Daí toda a mobilização da chamada "bancada evangélica" para barrar qualquer possibilidade de aprovação de uma lei que puna a homofobia. E olhe que em nenhum momento se ameaçou limitar a liberdade religiosa, nem se pretende. Enquanto isso, pouca importa que homossexuais sejam agredidos e assassinados em todo o País diariamente. Já ouvir falar em postura mais anti-religiosa que ignorar a dor e o sofrimento de um irmão só porque ele pensa diferente de você, ou entende o que é amor de outra maneira? 


ÉMERSON MARANHÃO
Repórter especial do POVO e editor da Cena G
 
Sim. O lobby dos setores religiosos é a parte mais visível da resistência ao projeto de lei contra a homofobia, mas explica apenas uma parte da dificuldade para sua a tramitação. O discurso das bancadas religiosas encontra eco nas posições de grande número de parlamentares, independentemente das orientações ideológicas ou confessionais. As preocupações com a preservação do direito de defender publicamente as interpretações religiosas contrárias à homosexualidade misturam-se com argumentos nada religiosos que caminham na fronteira bastante complexa que separa a liberdade de expressão do pensamento da pura incitação ao ódio e ao preconceito. A expectativa é que os parlamentares consigam construir um consenso em torno de um texto capaz de contribuir para a interrupção da tolerância e da indiferença com práticas que legitimam a discriminação
e a violência.


GUSTAVO FEITOSA
Doutor pela Unicamp e Professor da Unifor e UFC